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Desempenho lumínico: como estamos superando na prática as incongruências dos requisitos da Norma de Desempenho

17/08/2018

Por Vinicius Olmos Battistini, sócio responsável pela área de Simulação e Monitoramento do Ambiente Construído da Inovatech Engenharia

 

Para atender nossos clientes, que têm demandas reais e precisam de garantia de performance na hora de definir dimensões de ambientes e especificar revestimentos e esquadrias, por exemplo, foi preciso ir além do que determinam os requisitos da NBR 15.575.

Nos últimos anos fomos contratados para realizar centenas de simulações computacionais para atendimento aos requisitos de desempenho lumínico da NBR 15.575 e, ao longo desse período, sempre nos deparamos com situações bastante intrigantes para interpretar os requisitos da norma:

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O método de atendimento para conforto lumínico na fase de projeto exige uma verificação por algoritmo matemático em dois horários específicos ao longo do ano (23/abril e 23/outubro), com uma configuração de céu teórica e, pela nossa experiência, com baixíssimo grau de precisão;

2

O requisito de medição in loco, também obrigatório, exige medição com luxímetro portátil entre 9 h e 15 h em qualquer data do ano, e o parâmetro de medição é diferente do parâmetro de cálculo da fase de projetos, pois exige FLD (a razão entre nível de iluminância externo e nível de iluminância interno), enquanto a fase de projetos exige somente nível de iluminância interno.

O que encontramos

Aqui na Inovatech ficamos desconfortáveis com esses critérios tão discrepantes e começamos a estudar a fundo a questão da iluminação natural em edifícios. Logo no início nos deparamos com uma informação surpreendente: a maior parte dos estudos acadêmicos não continha uma amostra representativa de unidades habitacionais medidas em configuração real. O que havia eram medições de protótipos em laboratórios, e um ou outro estudo contendo medição em poucos edifícios, nem sempre com tipologias semelhantes.

Procuramos algumas universidades para compartilharmos nossa experiência e tentarmos colaborar, porém, como éramos uma empresa “do mercado”, fomos tratados com grande preconceito e levamos boas portas na cara.

Também procuramos eventos sobre o tema e tudo que vimos foi um monte de críticas aos critérios da norma e um grande movimento em prol das simulações computacionais e da qualidade das consultorias que fazem simulação, como se os modelos matemáticos sozinhos respondessem por performance nas construções. Chegamos ao absurdo de ouvir de um “especialista” que era impossível medir um prédio real, e que o importante era investir em simulação.

Como estamos contornando

Decidimos, então, entrar de cabeça na questão e começamos a medir dezenas de edifícios entregues, graças ao suporte de clientes que confiaram neste trabalho (conheça, por exemplo, um projeto realizado com a construtora Tegra). Assim, chegamos a resultados importantes, que queremos compartilhar:

1- Escolha do software

É muito importante, pois as margens de erro entre medido e simulado podem variar de 6% a 50%;

2- Retroalimentação

A retroalimentação através de medições in loco é tão importante quanto a qualidade do software;

3- O mais fácil nem sempre é o melhor

Softwares mais populares e fáceis de mexer possuem margens de erro muito superiores, o que na prática faz com que nossos clientes “deixem dinheiro na mesa” ao especificar caixilhos maiores do que os necessários para o nível de conforto pretendido em projeto;

4- Luxímetro portátil não resolve o problema

O Fator de Luz Diurna (FLD) requisitado pela norma possui variações da ordem de 10% ao longo do dia, somente com mudanças em configurações de nuvens de um céu nublado. Desta forma, a medição com luxímetro portátil, como preconiza a norma, torna-se uma medição totalmente inócua e sem nenhum tipo de resultado palpável;

5- Simulação computacional não garante atendimento

A grande maioria das incorporadoras ainda não está habituada com os requisitos de conforto lumínico da norma de desempenho e, muitas vezes, acha que basta a simulação computacional para garantir atendimento, o que, na prática, não é verdade;

6- Teoria x prática

Os níveis mínimos de iluminância calculados em projeto para apenas 2 horários do ano não fazem o menor sentido, pois não refletem a realidade de ocupação dos edifícios e tampouco existe correlação significativa entre os resultados de cálculo e os resultados reais de FLD.

Prioridade é atender o cliente

Face ao exposto, chegamos à conclusão de que nossos clientes precisam mesmo é de garantia de performance e conforto na hora de especificar tamanhos de ambientes, tamanho de esquadrias e cores de revestimentos, e não de requisitos totalmente desconectados da realidade brasileira e mundial.

Vale lembrar que os critérios exigidos aqui no Brasil deixaram de ser parâmetros há mais de 20 anos na comunidade internacional, que hoje olha para taxa de atendimento de iluminação natural ao longo do ano e ofuscamento. Praticamente ninguém mais olha para FLD.

Para nós, a norma de desempenho é uma oportunidade de aumentar a qualidade das construções no Brasil e a qualidade de vida das pessoas que vão morar nesses edifícios. De quebra, a norma também pode ser vista como um convite para as empresas ajustarem processos internos e otimizarem custos durante a obra. Venha tomar um café conosco para falarmos mais sobre o assunto!