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7 reflexões sobre casas autossuficientes e os caminhos para construirmos cidades mais sustentáveis

04/07/2018

Até que ponto faz sentido buscar a independência em relação às concessionárias de água e energia elétrica, pendurando residências e edifícios em bancos de baterias com tecnologia de alto custo, sem investir antes na mudança de hábitos de consumo?

 

Por Luiz Henrique Ferreira

 

2018 marca o aniversário de dez anos da certificação AQUA-HQE no Brasil e 13 anos desde a primeira certificação LEED por aqui. Ao longo desse período, o mercado passou a ter um parâmetro mais consistente do que é feito em termos de sustentabilidade na construção, graças às estatísticas levantadas pelas entidades que promovem as certificações e, assim, ajudam a fomentar efeitos positivos no mercado como um todo – e até um certo sentimento de culpa em quem ainda não “acordou” para as tão necessárias ações nessa área.

Mais recentemente, tenho observado iniciativas para a construção de casas autossuficientes, num movimento que pressupõe a evolução das construções sustentáveis para uma nova geração de edifícios que, em tese, poderiam operar de maneira independente das concessionárias de abastecimento de água e eletricidade. A disseminação dos sistemas de cogeração de eletricidade deu força ao movimento, especialmente em relação aos sistemas fotovoltaicos, que podem gerar autonomia na geração de energia elétrica, porém não necessariamente independência total da concessionária.

Essa questão é mais complexa do que parece e, no caso da eletricidade, o isolamento de construções penduradas em bancos de baterias dentro de cidades definitivamente não é a solução mais eficiente do ponto de vista de sustentabilidade. Aqui, enumerei 7 aspectos para uma reflexão sobre o tema:

1-Alto custo das baterias
Baterias são caras, além de terem um processo de fabricação com alto impacto ambiental.

2- Armazenar gera perdas
Mesmo as baterias mais eficientes apresentam perdas. Eletricidade é altamente perecível e o mais eficiente é utilizá-la imediatamente, no momento em que é gerada.

3- Isolamento x interdependência
Nas cidades, sempre haverá demanda por consumo de eletricidade. Por isso, é mais eficiente injetar o excedente na rede para alguém que precise da eletricidade naquele momento, ao invés de estocar para uso posterior.

4- Reciclagem incipiente
A reciclagem de baterias ainda é um assunto que precisa evoluir muito. Por isso, é fundamental refletir: será que vale mesmo a pena inserir um item no sistema cujo descarte não é ambientalmente bem resolvido?

5- Mudar hábitos de consumo vale muito
Este deve ser o principal vetor para uma vida mais sustentável. É muito mais eficiente e barato consumir menos eletricidade mudando hábitos do que encher o telhado de placas fotovoltaicas. Da mesma forma, é muito mais barato e eficiente consumir água com responsabilidade do que investir em um complexo sistema de tratamento para buscar uma autossuficiência hídrica.

6- Tecnologia não é a resposta para tudo
Não se trata de um posicionamento antitecnológico, pois a tecnologia é muito bem-vinda para resolver desafios ambientais e impulsionar a eficiência no uso de recursos naturais. A questão é que ela por si só não é suficiente para lidar com os desequilíbrios que o aumento populacional está causando no planeta. É fundamental que repensemos nossos hábitos antes de pensar em qualquer tecnologia para aumentar a oferta de recursos naturais.

7- Autossuficiência x sociedade pós-moderna
Casas autossuficientes são viáveis do ponto de vista tecnológico, não dependem de um especialista em sustentabilidade e não são nenhuma novidade. Quem nunca viu aquela casinha de sítio sem eletricidade, abastecida com água de riacho e comida da agricultura de subsistência? Mas será que os hábitos da nossa sociedade, cada vez mais conectada em redes, são compatíveis com a ideia de isolamento?

 

P.S.: Recentemente, comentei sucintamente o assunto em uma reportagem publicada pelo jornal Folha de São Paulo. Se tiver mais dois minutos disponíveis, leia a matéria na íntegra aqui.