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Quem disse que sustentabilidade precisa ser tecnológica?

Um olhar mais abrangente sobre a construção sustentável pode abrir um campo novo de possibilidades de respostas aos desafios do presente e do futuro, em que as mais altas tecnologias dialogam e coexistem com técnicas de bioconstrução

Por Luiz Henrique Ferreira

Tempos desafiadores como os que vivemos hoje pedem respostas criativas, inovadoras e, muitas vezes, personalizadas. Quando o assunto é construção sustentável, não existem fórmulas universais ou métodos construtivos que valem para todos os mais de 7 bilhões de habitantes do planeta. É preciso entender que as ações de sustentabilidade devem variar de acordo com a realidade de cada local.

Se, nas cidades, fica cada vez mais claro que precisamos desenvolver uma construção mais industrializada e capaz de reduzir danos ambientais (como consumo de água e a geração de resíduos nos canteiros de obras), vale lembrar que em regiões remotas do planeta mais de um bilhão de pessoas vive em casas de bambu, e que, segundo a ONU, 1,6 bilhão de pessoas habitam moradias inadequadas, a maior parte em favelas e assentamentos informais.

Quando somamos a esse panorama o alarmante quadro de desastres naturais e efeitos catastróficos gerados pelo aquecimento global, temos aqui uma ligeira ideia de como não dá para tentar empurrar a mesma sustentabilidade em todos os contextos. É preciso tirar proveito das novas tecnologias, sem dúvida alguma, mas sem esquecer que, em alguns casos, a arquitetura vernacular e os materiais disponíveis localmente podem nos dar as melhores respostas.

Dias atrás, li uma notícia interessante sobre uma iniciativa de um resort em construção na ilha de Lombok, na Indonésia. Em agosto, após o terremoto que destruiu mais de 50 mil casas no Norte da ilha, dirigentes, arquitetos e investidores do novo hotel decidiram unir esforços para ensinar parte dos desabrigados a construir novas casas usando uma técnica de bioconstrução conhecida aqui no Brasil como superadobe ou terra ensacada, em que sacos de polipropileno são preenchidos com solo local e dão forma a abrigos com um design inspirado nos domos geodésicos.

Na região mais arrasada pelo terremoto, moradores encontraram a cúpula de uma mesquita totalmente intacta entre os escombros. Segundo os arquitetos envolvidos no projeto do novo resort (que pouco sofreu com os abalos sísmicos), os domos são estruturas duráveis e extremamente resistentes a terremotos, o que os torna adequados às necessidades da região. Além disso, eles também são uma opção mais barata (pouco mais de 500 dólares, para abrigar até cinco pessoas), desde que, é claro, haja material disponível e mão de obra local engajada para executar o serviço.

Esta não foi a primeira vez que técnicas mais antigas de construção, mutirões e trabalhadores voluntários são adotados como resposta para ajudar a reconstruir vilarejos devastados pela ação da natureza. Em 2004, após o tsunami que arrasou o Sri Lanka, matando milhares de pessoas, vilarejos contaram com a ajuda de moradores da ecovila Sarvodaya para reconstruir algumas centenas de casas em poucos meses, utilizando técnicas ecológicas que agilizaram o processo, reduziram os impactos ambientais e levantaram a autoestima da população.

Aqui no Brasil, as chuvas que arrasaram cidades da serra fluminense no início de 2011 mobilizaram bioconstrutores do Tibá, que se uniram ao governo municipal para organizar mutirões de reconstrução de casas com técnicas ecológicas. O Tibá (Tecnologia Intuitiva e Bioarquitetura), localizado em Bom Jardim, vizinha de Nova Friburgo, é uma ONG de bioarquitetura e permacultura, fundada por Johan van Lengen, arquiteto holandês radicado no Brasil desde o fim dos anos 1980 e autor do livro “O Manual do Arquiteto Descalço”, um tipo de “bíblia” dos bioconstrutores.

Na ocasião, em que estradas e acessos foram destruídos ou bloqueados, o transporte de materiais de construção estava comprometido. Era preciso tirar proveito do que havia disponível no local: terra, escombros e pessoas necessitadas de abrigo.

Pensar a sustentabilidade de maneira mais personalizada, sob medida, é partir do princípio de que as demandas podem ser diferentes, mas os valores não mudam: promover igualdade e habitações saudáveis, com impactos ambientais reduzidos, tanto na obra quanto no uso das construções.

As técnicas de bioconstrução são muito interessantes quando aplicadas no local certo, adequado a um programa de necessidades específico, em que não existe, por exemplo, uma demanda muito alta por robustez para vencer grandes vãos ou grandes aberturas para garantir iluminação natural em halls e ambientes de permanência prolongada.

No caso de centros urbanos mais densos e verticalizados, a bioconstrução não atende às expectativas de eficiência, conforto e performance das construções. Se o superadobe é boa solução em algumas ocasiões, estruturas metálicas também podem ser interessantes em outro programa de necessidades.

O que vale e o que é preciso considerar é o contexto de cada obra: onde, para quem, com que propósito, quais os materiais escolhidos etc. Muitas vezes, construir uma casa não é apenas executar uma obra, mas reconstruir um lar, resgatar a sabedoria e a autoestima de um povo.

Cada clima e cada cultura tem sua própria história de arquitetura e construção, que deve ser considerada. Na Amazônia, por exemplo, a chegada da luz elétrica em algumas comunidades ribeirinhas introduziu materiais de construção pouco adequados ao clima local, como telhas metálicas, que não apenas descaracterizaram a arquitetura mais tradicional da região, como também geraram uma demanda antes inexistente por ar-condicionado e, consequentemente, por mais energia elétrica.

Tempos de crise, desemprego e pouca empatia em relação aos dramas alheios pedem um reforço nosso por mais sensibilidade e um olhar mais humanizado. Sem isso, nem as melhores tecnologias e os mais renomados profissionais conseguirão dar conta dos desafios do presente e, muito menos, sonhar com um futuro mais sustentável para as próximas gerações.

 

 

 


Luiz Henrique Ferreira é engenheiro civil e diretor da Inovatech Engenharia