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Compactos são mais sustentáveis?

Em geral, a primeira resposta é sim, mas é preciso manter o radar em alerta para não ultrapassar alguns limites importantes

Por Luiz Henrique Ferreira

Em São Paulo, o novo plano diretor da cidade gerou uma pressão muito grande no mercado para entregar mais unidades habitacionais compactas. Com bastante frequência, me perguntam se os compactos são mais sustentáveis. A resposta inicial que dou, normalmente, é que os compactos tendem, sim, a serem mais sustentáveis por, pelo menos, quatro aspectos principais:

1-Ambientes multiuso

Em geral, os compactos induzem o usuário a utilizar o mesmo ambiente para várias finalidades, reduzindo, assim, a necessidade de área construída e, consequentemente, o consumo de recursos naturais não renováveis na construção;

2- Uso compartilhado

Compactos induzem ao uso compartilhado de lavanderias, ferramentas, secadoras e tudo mais. Normalmente, máquinas de lavar roupas de uso profissional são mais eficientes, gastando menos água e energia por kg de roupa lavada. Além disso, gasta-se menos matéria-prima para fabricar poucas máquinas de lavar compartilhadas do que para fabricar várias máquinas pequenas de uso doméstico;

3- Consumo mais consciente

Compactos não possuem espaço para guardar coisas, o que desestimula seus moradores a consumirem coisas de que não precisam, reduzindo a pegada ecológica global das famílias.

4- Menor preço

O valor total a ser desembolsado num imóvel compacto é bem menor do que um imóvel maior, apesar do custo por metro quadrado normalmente ser mais alto.

Compacidade tem limite

Por outro lado, antes de afirmar com toda certeza que uma unidade habitacional compacta é mais sustentável, costumo alertar meus interlocutores sobre alguns cuidados importantes a serem considerados, principalmente quando começamos a tentar chegar ao limite da compacidade dos empreendimentos:

1-Atende à Norma de Desempenho?

Apartamentos muito compactos enfrentam grandes desafios para atender integralmente à NBR 15.575 em todos os seus requisitos, como, por exemplo, conforto lumínico natural e desempenho acústico;

2- É acessível?

Alguns apartamentos ultra-compactos não são 100% acessíveis, portanto, se o morador quebrar uma perna e precisar usar uma cadeira de rodas, provavelmente terá que se mudar temporariamente, deixando uma casa vazia consumindo recursos naturais, o que não é lá muito sustentável;

3- Teve um bom canteiro de obra para evitar desperdícios?

Canteiros de obras de construções compactas devem ser pensados com bastante cuidado, para que haja racionalização capaz de evitar desperdícios. Por exemplo, a quantidade de alvenaria por m² de construção é muito maior para empreendimentos compactos, ao passo que a quantidade de lajes de concreto e pilares permanece mais ou menos a mesma. Assim, um edifício com unidades compactas e utilizando vedações verticais em alvenaria tende a gerar muito mais entulho na fase de obras do que um edifício com unidades maiores num mesmo sistema estrutural.

4- Pesa demais sobre a infraestrutura urbana?

Do ponto de vista urbano, existe um limite de densidade populacional para não sobrecarregar o trânsito nas vias públicas e a infraestrutura existente de água, esgoto e energia. Concentrar unidades habitacionais ultracompactas em uma mesma região pode aumentar esses consumos em valores absolutos, ainda que o consumo por unidade habitacional seja menor. Por exemplo, num edifício com 40 apartamentos de 130 m², considerando 4 pessoas por apartamento, em média, temos uma população total de 160 pessoas. Se na mesma área construída forem produzidos studios com 20 m² com população média de 1,5 pessoa por unidade, teremos 260 studios e uma população de 390 pessoas (2,5 vezes maior do que a população das unidades maiores).

Considerando que as pessoas possuem hábitos semelhantes de se deslocar,  assistir televisão, comer, tomar banho e ir ao banheiro, isso significa um aumento expressivo na demanda, que se desdobra em uma necessidade de readequar a infraestrutura das cidades para lidar com a compacidade, inclusive repensando linhas de transporte coletivo, vagas para estacionamento, ciclovias etc.

Em resumo, sou totalmente favorável à racionalização e eficiência no uso de espaços construídos. E a compacidade de unidades habitacionais é, sem dúvida, um dos desdobramentos da racionalização e eficiência, desde que tomados os devidos cuidados quando se vai ao extremo da redução de tamanhos de unidades.


Luiz Henrique Ferreira é engenheiro civil e diretor da Inovatech Engenharia