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Impressão de casas em 3D: será mesmo?

Impressão de casas em 3D: será mesmo?

10/03/2020

3 motivos para crer que esta tecnologia ainda está longe de gerar uma revolução na construção para reduzir o déficit habitacional

 

Por Luiz Henrique Ferreira*

Todas as semanas me deparo com posts revelando casas impressas em 3D em velocidades cada vez maiores, e muita gente celebrando que esta é a próxima revolução tecnológica da construção para resolver o déficit habitacional. Minha opinião é de que a impressão 3D é, sim, uma grande inovação. Porém, não é uma tecnologia viável até o momento para a construção de casas.

Vejo a impressão 3D como uma excelente solução para impressão de componentes construtivos, mas não para impressão de casas. Abaixo, relaciono os principais desafios que vejo para que a impressão 3D seja de fato viável:

1- Industrialização pressupõe maquinário parado e produtos se movimentando

Qualquer que seja a fábrica (bebidas, carros, computadores etc.), o que vemos são as máquinas paradas e os produtos caminhando. Este é um princípio básico da produtividade, pois as máquinas são elementos pesados, de alta precisão e de difícil setup.

Desta forma, o custo de mobilização e desmobilização da impressora de casas precisa ser equacionado, bem como o prazo incluído na conta da produtividade. Procurei bastante nos posts o tempo dedicado ao setup da impressora e o tempo necessário para desmobilização após a impressão da casa, mas ainda não encontrei.

Talvez a solução aqui seja a impressão de edifícios em 3D, pois, neste caso, pode-se criar um dispositivo vertical em que a impressora sobe sempre no mesmo eixo após o término de cada ciclo de impressão. Porém, neste caso, os desafios do item 2 (abaixo) se potencializam.

2- Condições climáticas impactam diretamente na qualidade da impressão 3D

Na grande maioria dos casos, as casas são impressas em diversas camadas sobrepostas de argamassa. Estamos falando de um produto que tem suas propriedades profundamente alteradas por condições de umidade, temperatura e poeira/impurezas no ar.

Desta forma, o controle de qualidade de casas impressas em 3D torna-se algo bastante complexo, pois, diferentemente das paredes de concreto moldadas in loco, não existe a superfície das formas para proteger o material fluido (concreto) até a sua cura total. Em edifícios altos, ventos e gradientes de temperatura distintos por conta do caminhamento do sol podem gerar impactos expressivos na qualidade da impressão.

3- A estrutura é metade do trabalho 

Os exemplos que vi até hoje são de casas onde somente a estrutura é impressa em 3D. Assim, toda a a parte de instalações, cobertura, esquadrias, revestimentos cerâmicos, portas etc. ainda são feitas no formato tradicional.

É aí que mora o grande perigo da produtividade: se a cadeia de suprimentos não estiver toda muito bem equacionada e o projeto realizado em BIM, imprime-se a casa em algumas horas e depois leva-se alguns meses para terminar tudo, jogando pela janela boa parte dos ganhos de produtividade.

Aqui vejo um grande desafio em relação aos outros sistemas industrializados, sejam eles paredes de concreto moldadas in-loco, light steel frame, wood-frame, pré-moldados etc. Todos estes sistemas permitem que se fabrique a parede ou laje com todos os componentes de instalações já consolidados. Mas, hoje as tecnologias de impressão 3D são monocomponentes, ou seja, imprime-se uma coisa de cada vez.

Expectativa x Realidade da impressão de casas em 3D

Enfim, acredito que o melhor caminho para a impressão 3D seja o uso da tecnologia para impressão de componentes. Isso vale, principalmente, para aqueles que dependem de algum tipo de medição in loco em obra, como guarda-corpos, soleiras, pias, bancadas, vergas, entre outros.

Por ora, a impressão de casas inteiras em 3D, ao meu ver, ainda ficará por bons anos restrita aos laboratórios acadêmicos e produções descompromissadas com a viabilidade econômica. Bora esperar os próximos anos para ver o que irá acontecer…

 

*Luiz Henrique Ferreira é CEO e Fundador da Inovatech Engenharia.